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Arca de Noé... ao contrário

Sem descuidar do bem-estar da imensa população de seres humanos. Uma tarefa digna de um herói como Noé, que salvou a vida de toda a criação – inclusive o homem. 30/04/2018 - 07:58:39

história bíblica na qual Deus chama o único homem justo, em toda a terra corrompida, o patriarca Noé, a fim de que salve, juntamente com sua família, um casal de cada espécie de animal de um dilúvio avassalador a bordo de um imenso barco de madeira, é uma das mais famosas e empolgantes de todos os tempos.

Compreensivelmente, a mesma história, com poucas variações, aparece em diversas culturas e civilizações da antiguidade, iniciando pelos sumérios – afinal foram eles que formularam a primeira linguagem escrita que se tem notícia.

Já a nossa própria história, enquanto espécie, é praticamente o contrário da do justo Noé: o espantoso animal homem, aonde quer que se mude, acaba causando a extinção em massa de outros animais, o maior desastre ambiental que a Terra já testemunhou.

Nossa espécie evoluiu lentamente no continente africano, em conjunto com a fauna local, que em grande parte passou a temer aquele bípede desajeitado mas cada vez melhor armado de armas e fogo.

Quando os humanos chegaram ao Sul da Eurásia ainda estavam nos primórdios de sua organização social, então a fauna também teve tempo para se adaptar ao novo detentor do topo da cadeia alimentar. Mas quando os humanos chegaram à isolada Austrália, a cerca de 45 mil anos atrás, as consequências foram bem mais sérias.

Os antepassados dos aborígenes encontraram mansos vombates com 2,5 toneladas, cangurus com 200 quilos e dois metros de altura, um leão-marsupial tão grande como um tigre, coalas do tamanho de ursos e aves terrestres com o dobro do tamanho da avestruz, sem contar grandes lagartos e cobras com até 5 metros de comprimento.

“O homem acaba causando a extinção em massa de outros animais”

Das 24 espécies de animais pesando mais de 50 quilos 23 simplesmente desapareceram para sempre. Ocorre que animais grandes procriam devagar, com longas gestações que resultam em apenas um ou dois filhotes, de forma que não são necessários super-caçadores para acabar com uma população de gigantes, apenas que o número de mortes seja superior ao de nascimentos.

Também não se tratava, como geralmente se imagina, de corajosos grupos de caçadores acertando suas lanças com pontas de pedra afiada em animais gigantescos que poderiam matá-los no processo – mais comum era a tribo simplesmente atear fogo na floresta e recolher depois as carcaças carbonizadas – um churrasco fácil, mas devastador a longo prazo.

Florestas tornaram-se savanas, e savanas tornaram-se desertos. Na Austrália, a grande diversidade florestal deu lugar ao quase onipresente eucalipto, raro a 45 mil anos, mas resistente ao fogo.

Mudanças climáticas foram apressadamente apontadas como as responsáveis, mas estudos mais aprofundados revelaram que as extinções em massa sempre eram antecedidas pela chegada da nossa espécie, afastando definitivamente esta hipótese simplória e conveniente.

Os homens se espalharam então para o inóspito norte da Eurásia, caçando maciçamente os mamutes na sua trajetória até que suas populações ficaram restritas à ilha de Wrangel, no oceano Ártico, onde o homem chegou a 4 mil anos – quando as pirâmides já haviam sido construídas – e liquidou de vez com a espécie.

Há cerca de 16 mil anos os primeiros americanos teriam chegado a pé pela então existente ponte de terra que ligava o nordeste da Sibéria com o Noroeste do Alasca, atrás da grande quantidade de carne fornecida pela caça de grandes animais ali abundantes – que ainda forneciam gordura saborosa, peles quentes e marfins valiosos.

Novamente, o homem mostrou-se o mais adaptativo dos animais, povoando as densas florestas temperadas do Leste e os desertos centrais da América do Norte, os pântanos do Mississipi, as florestas chuvosas da América central e da bacia do Amazonas, nos vales das montanhas andinas e nos pampas argentinos, até que em 8 mil anos atrás chegaram à ilha da Terra do Fogo.

Mais uma vez um alto preço foi pago pela fauna antes isolada: mamutes e mastodontes, roedores do tamanho de ursos, grandes rebanhos de cavalos e camelos, temíveis dentes-de-sabre e preguiças gigantes que chegavam a pesar 8 toneladas, além de aves e répteis, todos foram extintos em menos de 2 mil anos após a chegada do homem a cada ecossistema.

A América do Norte perdeu 34 das 47 espécies de grandes mamíferos; a do Sul perdeu 50 de 60. Ressalte-se que todo esse estrago se seu antes da invenção da roda, da metalurgia e da agricultura e pastoreio, quando a população humana na Terra não somava a de uma única grande cidade moderna.

Os homens só chegaram em Cuba e outras ilhas a cerca de 5 mil anos, não sendo surpresa que logo em seguida se extinguiram as preguiças gigantes e o restante da megafauna. De ilha em ilha, o homem foi estendendo seu domínio e destruição: a 2,5 mil anos os polinésios colonizaram as ilhas Salomão, Fiji e Nova Caledônia, dizimando centenas de espécies de aves, insetos e mamíferos; a 1,5 mil anos eles chegaram à Madagascar e deixaram de existir o pássaro-elefante, lêmures gigantes e o restante dos grandes animais; também suprimiram a fauna peculiar de Samoa e Tonga, a 3,2 mil anos, das ilhas Marquesas a 2 mil anos, das ilhas de Páscoa, Cook e Havaí, a cerca de 1,5 mil anos, e por fim na Nova Zelândia, a meros 800 anos atrás, quando deixaram de existir a maior parte da megafauna local e 60% das espécies de pássaros.

Apenas algumas poucas ilhas isoladas até o século XIX e receberam um pouco mais de cuidado, como as famosas Galápagos, ainda que parte de sua fauna única e sem medo do homem ainda assim tenha sido exterminada.

Para a natureza, portanto, a grande inundação que tudo destrói não é aquela de água, mas sim de homens sem limites para seus números e seus apetites. Que o digam as diversas espécies humanas igualmente tragadas na maior onda de extinção causada por uma única espécie na história da Terra.

Nossos ancestrais apenas lutavam para viver, sem consciência dos desastres que seu sucesso acarretava. Não é o nosso caso. Algumas medidas estão sendo tomadas por governos e indivíduos, como o estabelecimento de parques e reflorestamentos, energias limpas, selos ambientais, restrições, compensações e fiscalizações, mas ainda há muito a ser feito, especialmente para garantir a existência de populações em sério risco de extinção, como os grandes mamíferos do mar, os grandes primatas e todos animais que vivem nas áreas florestais cada vez mais ameaçadas pela fronteira agrícola e cidades.

Sem descuidar do bem-estar da imensa população de seres humanos. Uma tarefa digna de um herói como Noé, que salvou a vida de toda a criação – inclusive o homem.

Sandra Cristina Alves é defensora pública do Estado, escritora e escreve exclusivamente neste Blog toda segunda (sandra_cristina_alves@hotmail.com)

Fonte: Sandra Alves

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